A operação deflagrada pela Polícia Federal colocou sob os holofotes do cenário político nacional o deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP). Investigado por suspeita de envolvimento em esquemas de tráfico de influência perante os tribunais superiores, o parlamentar paulista é considerado uma das figuras mais emblemáticas e influentes no segmento evangélico dentro do Congresso Nacional. O avanço das apurações policiais lança luz sobre as complexas conexões entre o Poder Legislativo, o Judiciário e grandes grupos econômicos.
Com uma carreira construída com base na representação religiosa, Cezinha consolidou-se como uma das principais pontes de diálogo entre a bancada evangélica e as instâncias decisórias em Brasília. A ação da PF representa um sobressalto significativo em sua trajetória política, que inclui a liderança da Frente Parlamentar Evangélica e o trânsito livre no Palácio do Planalto durante a gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro.
De São Paulo a Brasília: a construção da base na Assembleia de Deus
Natural de Ipiaú, na Bahia, Cezinha de Madureira mudou-se para o estado de São Paulo na década de 1990. Foi na capital e no interior paulista que iniciou sua projeção comunitária e política por meio da ligação direta com a Assembleia de Deus Ministério de Madureira, uma das denominações pentecostais mais expressivas do país. A proximidade com o bispo Samuel Ferreira, presidente executivo da igreja, tornou-se o pilar central de sua atuação pública, a ponto de o parlamentar incorporar a representação da denominação religiosa ao próprio nome registrado nas urnas.
Após exercer o mandato de deputado estadual pela Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), Cezinha foi eleito para a Câmara dos Deputados em 2018 e conquistou a reeleição em 2022. Em Brasília, sua ascensão foi rápida. Em 2021, assumiu a presidência da Frente Parlamentar Evangélica (FPE), posição estratégica que lhe garantiu protagonismo na pauta de costumes e na articulação de votações decisivas. Mesmo após deixar o comando formal do grupo, continuou atuando como um influente articulador entre as diferentes alas da bancada.
O papel na indicação ao STF e as conexões com o caso Master
Um dos momentos de maior projeção da atuação de Cezinha de Madureira ocorreu durante o processo de indicação de André Mendonça para uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF). Indicado por Bolsonaro em 2021 sob a premissa de representar um perfil evangélico na Corte, Mendonça enfrentou meses de travamento na Comissão de Constituição e Justiça do Senado. Cezinha assumiu a linha de frente da mobilização política, atuando junto à presidência da Casa para destravar a sabatina.
No dia da votação decisiva, o deputado acompanhou a apuração no gabinete parlamentar ao lado da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e de lideranças do Ministério de Madureira. A confirmação do nome de Mendonça fortaleceu publicamente a aliança e a relação de amizade entre o parlamentar e o novo ministro da Suprema Corte.
Contudo, essa proximidade voltou ao centro das atenções a partir de desdobramentos envolvendo o chamado caso Master. Cezinha de Madureira intermediou um encontro, realizado em março de 2025 em São Paulo, entre o ministro André Mendonça e o empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. O contato foi confirmado pelo próprio magistrado, que afirmou ter atendido a um pedido do deputado articulado por interlocutores religiosos. O fato de Mendonça ter assumido posteriormente a relatoria do caso no STF passou a ser ponto de forte escrutínio por parte dos órgãos de controle.
Aliança com o bolsonarismo e movimentações partidárias
A trajetória recente do parlamentar também é marcada pelo forte alinhamento com o bolsonarismo. Durante o governo anterior, Cezinha exerceu a vice-liderança do governo na Câmara e manteve presença frequente nas agendas do Executivo federal. A proximidade política manifestava-se publicamente em eventos de grande visibilidade, como motociatas e agendas públicas no estado de São Paulo.
Eleito originalmente pelo PSD de Gilberto Kassab, Cezinha efetivou sua migração para o PL para se alinhar formalmente à legenda da família Bolsonaro. A transição partidária, contudo, ocorreu em meio a rearranjos e disputas internas. Apesar de negociações prévias para assegurar espaço para a Assembleia de Deus nas chapas majoritárias paulistas, o deputado acabou ficando de fora das vagas ao Senado, o que expôs divergências e reorganizações de forças na ala conservadora.
Desdobramentos e o impacto político
As investigações conduzidas pela Polícia Federal buscam esclarecer se as pontes mantidas por Cezinha de Madureira entre agentes públicos, instâncias do Judiciário e agentes do setor privado extrapolaram os limites da atividade parlamentar regular para configurar intermediação ilícita de interesses.
O avanço do inquérito e as possíveis medidas judiciais decorrentes tendem a gerar desdobramentos tanto na organização interna da bancada evangélica no Congresso quanto na dinâmica de interlocução entre o meio político e os tribunais superiores.
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Fonte: https://oglobo.globo.com