O ex-banqueiro Daniel Vorcaro, preso preventivamente no âmbito da Operação Compliance Zero, prestou um depoimento de mais de três horas à Polícia Federal no qual negou categoricamente ter obtido informações privileged ou oferecido vantagens indevidas a ex-integrantes do Banco Central (BC). O interrogatório, conduzido pelo delegado federal Albert Paulo Sérvio de Moura, confrontou o empresário com capturas de tela e registros de conversas mantidas com nomes de alto escalão da autoridade monetária brasileira. A oitiva busca esclarecer se a aproximação de Vorcaro com reguladores extrapolou os limites institucionais e interferiu na fiscalização do sistema financeiro.
Durante o interrogatório, o foco policial recaiu sobre a relação mantida por Vorcaro com Belline Santana, ex-chefe do Departamento de Supervisão Bancária do BC, e Paulo Sérgio Neves, ex-diretor de fiscalização da autarquia. As investigações apuram se houve favorecimento na análise de operações envolvendo o Banco Master, instituição controlada pelo investigado. A defesa, contudo, sustenta que o diálogo mantido com os fiscais e diretores restringiu-se a tratativas formais e a apoios institucionais legítimos, sem qualquer contrapartida financeira voltada a interferir em decisões regulatórias.
A defesa sobre os contatos e o financiamento de projetos sociais
Um dos momentos mais detalhados do depoimento envolveu os questionamentos sobre eventuais transferências de recursos ou bens em favor de Belline Santana. Questionado de forma direta sobre benefícios econômicos direcionados ao ex-servidor do Banco Central, Vorcaro negou qualquer repasse pessoal. O ex-banqueiro explicou que o contato com Santana esteve vinculado ao interesse em apoiar uma iniciativa social focada na inserção e promoção de pessoas negras em cargos de liderança no setor bancário e em bancos centrais ao redor do mundo.
Segundo o relato prestado à Polícia Federal, o projeto chamou a atenção do empresário entre o final de 2023 e o início de 2024, em razão de seu histórico prévio de investimentos em ações sociais, como o Instituto Redut e iniciativas no continente africano. Vorcaro afirmou que repassou a avaliação da proposta ao seu cunhado, Fabiano Zettel, e ao advogado Leonardo Palhares para que analisassem a viabilidade da parceria. Para a defesa, essa articulação justifica o diálogo frequente sem que isso represente repasse de vantagens ilícitas relacionadas ao cargo público ocupado por Santana.
Serviços de concierge e as negociações com o BRB
Outro ponto sensível abordado pelo delegado Albert Paulo envolveu o custeio de viagens e serviços de alto padrão concedidos a Paulo Sérgio Neves, ex-diretor de fiscalização do BC. A Polícia Federal investiga o uso de uma estrutura corporativa de marketing do banco para beneficiar o ex-servidor em uma viagem familiar aos Estados Unidos. Vorcaro admitiu ter disponibilizado serviços de concierge na região da Disney, mas alegou que a estrutura já era mantida anualmente pelo próprio banco para atender clientes, parceiros comerciais e conhecidos, sendo oferecida como uma cortesia social.
O depoimento também lançou luz sobre os bastidores da frustrada tentativa de fusão entre o Banco Master e o Banco de Brasília (BRB). Vorcaro declarou aos investigadores que a cúpula do Banco Central, incluindo diretores e o próprio presidente da instituição, Gabriel Galípolo, mantinha uma postura de incentivo à conclusão do negócio. Segundo ele, as reuniões com os órgãos reguladores buscavam adequar exigências e ajustar pontos técnicos para viabilizar a aprovação do pleito, existindo a expectativa interna de que a operação seria chancelada.
Cenário regulatório, crise e o destino das investigações
A derrocada da transação com o BRB forçou o Banco Master a buscar alternativas de emergência para cobrir o rombo financeiro e evitar a intervenção estatal. O ex-banqueiro relatou ter realizado diversas viagens aos Emirados Árabes Unidos na tentativa de captar investidores privados estrangeiros e afastar a pressão midiática em torno do grupo. Contudo, após sua primeira prisão, o empresário admitiu ter percebido que a liquidação extrajudicial da instituição seria o desfecho inevitável, diante da perda de credibilidade e do fechamento das portas no mercado financeiro.
O caso acende um alerta sobre a fragilidade das fronteiras entre o setor privado bancário e os órgãos de fiscalização estatal no Brasil. A proximidade entre banqueiros e diretores de órgãos reguladores coloca em xeque a impessoalidade necessária para a supervisão do sistema financeiro nacional. As revelações obtidas pela Polícia Federal reforçam a importância de mecanismos rigorosos de compliance e governança pública, fundamentais para garantir a estabilidade das instituições financeiras e a proteção dos correntistas e investidores em todo o país.
O desenrolar das investigações da Operação Compliance Zero e os impactos no cenário econômico brasileiro continuam sob permanente acompanhamento. Para manter-se informado sobre os principais fatos da política, economia e justiça com credibilidade e profundidade, continue acompanhando a cobertura completa do Capital Capixaba, o seu portal de notícias comprometido com a informação precisa e contextualizada.
Fonte: https://tribunaonline.com.br