A cidade de Santa Teresa, na Região Serrana do Espírito Santo, tornou-se o epicentro das discussões sobre a preservação ambiental no país com a realização do XIV Simpósio sobre a Biodiversidade da Mata Atlântica (Simbioma). O evento, sediado no histórico Museu de Biologia Professor Mello Leitão, reuniu cerca de 200 participantes, entre pesquisadores, docentes, estudantes universitários, gestores ambientais e moradores da região. Promovido pela Associação de Amigos do Museu (Sambio) em parceria com o Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA), o encontro deste ano colocou em pauta a relação direta entre a saúde dos cursos d’água e a sustentabilidade dos territórios.
Com o tema central “Ecossistemas aquáticos da Mata Atlântica: da integridade dos rios à sustentabilidade dos territórios”, a programação científica busca mapear soluções urgentes para a conservação de rios, riachos e vegetações ciliares. Em um bioma onde restaramm poucas áreas contínuas de floresta original, a degradação dos ecossistemas aquáticos ameaça não apenas a fauna endêmica, mas também a segurança hídrica das populações humanas que dependem dessas bacias hidrográficas.
O papel vital das matas ciliares e os desafios das bacias hidrográficas
A conferência de abertura do evento foi conduzida pelo professor Paulo dos Santos Pompeu, da Universidade Federal de Lavras (UFLA), que detalhou a importância crucial das matas ciliares na manutenção da vida aquática. De acordo com o especialista, as florestas que margeiam os cursos d'água funcionam como escudos de proteção contra o assoreamento do solo e a contaminação por agrotóxicos e efluentes, além de serem a principal fonte de alimento e abrigo para peixes e invertebrados.
Durante a apresentação, Pompeu destacou que a preservação de um rio depende da gestão integrada de toda a sua bacia de drenagem, refletindo o modo como a sociedade ocupa e explora o solo ao redor. “O destino dos nossos rios, de alguma forma, anuncia o nosso. Se a gente quiser se manter de uma maneira sustentável no nosso planeta por muito tempo, sem dúvida, a gente tem que ter um olhar diferenciado sobre nossos rios e córregos”, alertou o pesquisador.
Como estudo de caso emblemático, foram apresentados dados do monitoramento de longo prazo na Bacia do Rio Doce, profundamente impactada pelo rompimento da barragem de Fundão, ocorrido em Mariana (MG) no ano de 2015. Segundo as pesquisas atuais, há sinais graduais de recuperação biológica, observados principalmente nos trechos mais distantes do ponto de colapso e nas áreas beneficiadas por afluentes limpos. No entanto, o avanço de espécies não nativas de peixes nesses trechos surge como um novo obstáculo para o reequilíbrio da biodiversidade original.
A discussão também conectou a proteção dos recursos hídricos às crises climáticas globais. Com o aumento da frequência de secas extremas e tempestades severas, a manutenção das florestas de galeria atua como um regulador natural do fluxo de água. Essa cobertura vegetal ajuda a recarregar o lençol freático, diminui a força das enxurradas e minimiza riscos de deslizamentos de terra nas encostas.
Bagrinho-de-kaetés: o símbolo regional da ameaça de extinção
Um dos momentos marcantes do simpósio foi o anúncio do bagrinho-de-kaetés (<i>Trichogenes claviger</i>) como a espécie-símbolo do Simbioma para a edição de 2026. Trata-se de um pequeno peixe endêmico de riachos cristalinos do sul do Espírito Santo, atualmente classificado como criticamente ameaçado de extinção.
A pesquisadora Juliana Paulo da Silva Novelli, vinculada ao INMA, explicou que a espécie possui exigências ambientais extremamente específicas, sobrevivendo apenas em riachos de águas frias, limpas e bem oxigenadas, protegidas por uma cobertura florestal densa. “Se não houver uma floresta sadia, os rios também não vão estar e vice-versa”, ressaltou a cientista, reforçando que a escolha da espécie visa chamar a atenção do público geral para a urgência em proteger os pequenos micro-hábitats da Mata Atlântica capixaba.
Ciência cidadã e a integração com as comunidades locais
Além das análises técnicas e biológicas, a dimensão social da conservação ganhou destaque na palestra magna ministrada pela professora Luísa Sarmento Soares. A pesquisadora defendeu a tese de que projetos ambientais só alcançam resultados sustentáveis de longo prazo quando envolvem diretamente os moradores do entorno das áreas protegidas.
Para ilustrar essa abordagem, Luísa apresentou os resultados obtidos pelo Instituto Nossos Riachos em Niterói, no estado do Rio de Janeiro. Na iniciativa, iniciada em 2019, a comunidade local transformou um trecho urbano antes degradado e acumulador de resíduos em um parque ambiental comunitário, recuperando a faixa de mata ciliar e criando espaços de convivência e lazer.
Essa troca de experiências foi celebrada pelos jovens cientistas presentes no evento, como a estudante de Biologia Elisa Magno, do campus de São Mateus da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Participando pela primeira vez do Simbioma para apresentar seu trabalho acadêmico, ela ressaltou que a integração entre diferentes instituições de ensino e a comunidade fortalece a produção científica e estimula novas práticas de preservação nos municípios do interior.
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