O elefante Sandro, de 54 anos, deu início a uma nova etapa de sua trajetória ao começar a explorar a vasta área verde reservada para ele no Santuário de Elefantes Brasil (SEB), localizado no município de Chapada dos Guimarães, a 65 quilômetros de Cuiabá (MT). Após viver por mais de quatro décadas sob os cuidados do Parque Zoológico Municipal Quinzinho de Barros, em Sorocaba (SP), o animal concluiu uma complexa viagem de aproximadamente 1,6 mil quilômetros até o seu novo recinto, onde se tornou o primeiro morador macho da instituição.
A transição entre o espaço de confinamento do transporte e a vegetação nativa mato-grossense ocorreu de forma espontânea. Logo após a abertura do portão do centro de tratamento, Sandro demonstrou curiosidade imediata e passou a interagir ativamente com o terreno, atitude considerada um sinal positivo pelos veterinários e biólogos que supervisionam cada fase de sua aclimatação.
Primeiros passos e resgate de comportamentos naturais
Registros em vídeo feitos pela equipe do santuário mostram o paquiderme em seus primeiros momentos no espaço externo. Assim que teve acesso ao solo de terra, Sandro cobriu o próprio corpo com poeira e substrato vegetal, realizando o tradicional "banho de terra". Esse comportamento é típico dos elefantes na natureza e cumpre funções essenciais para a saúde da espécie, atuando como protetor solar natural, repelente contra insetos e regulador da temperatura corporal.
A equipe do SEB relatou surpresa com a prontidão do animal em explorar o ambiente. Segundo os cuidadores, bastaram poucos segundos após a liberação do portão do galpão para que Sandro saísse ao ar livre. O movimento repetiu a dinâmica observada no dia de sua chegada, quando o elefante desembarcou da caixa de transporte em menos de um minuto, de maneira totalmente voluntária e sem qualquer tipo de indução ou estresse.
Protocolos veterinários e adaptação monitorada
A transferência de um elefante idoso demanda cuidados rigorosos de manejo e monitoramento de saúde. De acordo com o veterinário Matheus Bianchini, integrante da equipe técnica do santuário, a prioridade absoluta nos primeiros dias é assegurar o descanso físico e a recuperação metabólica do animal. Por essa razão, Sandro passou a primeira noite retido em um galpão de tratamento, estratégia adotada para evitar o desgaste excessivo decorrente do excesso de estímulos externos.
Segundo Bianchini, a contenção temporária durante a noite é fundamental para forçar uma pausa do animal, que tende a se movimentar continuamente movido pela novidade do espaço. O galpão conta com um sistema de câmeras de alta resolução que operam em tempo real. Por meio desse equipamento, a equipe médica acompanha o ritmo cardíaco aparente, os padrões de sono e a retomada da alimentação do paciente sem a necessidade de interferência humana direta, preservando o sossego do animal.
Entre os aspectos comportamentais já mapeados pela equipe responsável está a sensibilidade do paquiderme a barulhos de equipamentos eletrônicos. Sandro demonstrou incômodo com o som de motores de drones, o que levou o santuário a ajustar seus protocolos de captação de imagens e vigilância aérea para não gerar impactos negativos em seu bem-estar.
Convivência social e diretrizes de preservação
A chegada do macho marca um novo capítulo na operação do Santuário de Elefantes Brasil, que até então abrigava apenas seis fêmeas. Por razões de segurança, diretrizes de manejo e em conformidade com a política estrita de não reprodução mantida pela instituição, Sandro não dividirá o mesmo recinto físico com as demais moradoras.
A estrutura do local foi desenvolvida para permitir um contato social indireto e seguro. Separados por cercas de contenção de alta resistência, o macho e as fêmeas conseguem se visualizar, reconhecer odores e estabelecer comunicação por meio de vocalizações e infrassons — frequências graves utilizadas pelos elefantes para se comunicar a longas distâncias. Esse modelo respeita a biologia da espécie, já que, no habitat natural, os machos adultos mantêm hábitos mais solitários ou vivem em pequenos grupos isolados das manadas femininas.
A relevância dos santuários na conservação da vida selvagem
A transferência de animais que passaram décadas em recintos urbanos para recintos em meio à natureza reflete uma evolução significativa no debate sobre o bem-estar animal no Brasil. Espaços amplos como o de Chapada dos Guimarães oferecem dezenas de hectares de vegetação nativa, relevo acidentado e variedade de estímulos ambientais, permitindo que indivíduos resgatados recuperem a capacidade de caminhada longa e o uso de instintos adormecidos.
Para espécimes na fase sênior, como Sandro, essa mudança traz benefícios diretos à saúde articular, fortalecimento muscular e redução dos níveis de estresse crônico. A adaptação completa é um processo contínuo que deve se estender pelos próximos meses, acompanhado por um plano nutricional específico e avaliações veterinárias periódicas.
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Fonte: https://g1.globo.com