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Vera Magalhães analisa pesquisa Quaest e aponta cenário ‘muito negativo’ para Lula em meio a desgaste político e econômico

O presidente Lula em evento no Palácio do Planalto — Foto: Brenno Carvalho/Agência O Globo

O cenário eleitoral brasileiro apresenta sinais de forte volatilidade e alerta vermelho para o Palácio do Planalto. A divulgação da mais recente pesquisa Quaest revelou dados consolidados que desenham um panorama desafiador para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em sua trajetória rumo à reeleição. Na avaliação da jornalista e colunista Vera Magalhães, o movimento captado pelos números é "muito negativo" para o atual mandatário, refletindo o impacto direto da estagnação econômica percebida pelas famílias e os desdobramentos de recentes crises institucionais no país.

Um dos dados mais marcantes da sondagem é o empate técnico e numérico entre Lula e o senador Flávio Bolsonaro (PL) na simulação de segundo turno, registrando 41% da preferência para cada um. Em levantamentos anteriores, o petista mantinha vantagem confortável, que chegou a registrar oito pontos percentuais na metade do ano. O derretimento dessa folga coincide com uma conjuntura conturbada, marcada pelo aumento da rejeição ao governo federal e pela escalada do tema da corrupção na ordem do dia do eleitorado.

O impacto da crise no Supremo Tribunal Federal sobre o governo

A análise da especialista destaca que o aumento da preocupação dos eleitores com a corrupção não ocorre de forma isolada. O período de campo da pesquisa Quaest coincidiu com a eclosão da nova crise envolvendo o Supremo Tribunal Federal (STF), decorrente da divulgação de trocas de mensagens entre o ministro Alexandre de Moraes e interlocutores ligados a investigações financeiras, como o caso do Banco Master. Embora o epicentro da controvérsia esteja no Poder Judiciário, os desdobramentos ricocheteiam diretamente na imagem do Palácio do Planalto.

Essa conexão decorre da forte associação simbólica e política construída por parcela do eleitorado entre o ministro do STF e a figura do presidente Lula. Moraes, que liderou os inquéritos decorrentes dos atos antidemocráticos de 8 de janeiro e a condução das investigações que culminaram no cerco ao ex-presidente Jair Bolsonaro, passou a ser visto por grande parte dos eleitores opositores e indecisos como um pilar de sustentação do projeto governista. Com isso, qualquer turbulência ética ou institucional que atinja a Suprema Corte acaba por contaminar a percepção pública sobre a integridade da própria gestão federal.

Desempenho no primeiro turno, rejeição alta e fatores econômicos

No cenário simulado para o primeiro turno, Lula ainda se mantém na liderança, somando 36% das intenções de voto. Ele é seguido por Flávio Bolsonaro, que contabiliza 29%, e pelo médico e escritor Augusto Cury (Avante), que aparece isolado na terceira posição com 8%. Os eleitores que declaram voto branco, nulo ou que pretendem se abster somam 8%, enquanto o contingente de indecisos se fixa em 10%. Apesar da liderança momentânea na primeira etapa, a margem de folga do atual presidente diminuiu progressivamente em relação às pesquisas dos meses anteriores.

A consolidação do nome de Flávio Bolsonaro como principal contraponto ao projeto de reeleição vem acompanhada por patamares elevados de rejeição para ambas as lideranças. O levantamento indica que 55% dos entrevistados afirmam que não votariam no filho do ex-presidente em hipótese alguma, enquanto a rejeição a Lula atinge 53%. Esse índice alto de recusa mútua evidencia a polarização persistente no eleitorado brasileiro e reduz a margem para erros de estratégia por parte dos comandos de campanha.

Somado ao ambiente político desfavorável, o fator econômico opera como um elemento corrosivo constante para a popularidade presidencial. A avaliação geral do governo registrou reprovação de 50%, superando numericamente a taxa de aprovação, que ficou em 43%. A percepção de grande parcela das famílias é de que o custo de vida e a variação nos preços dos alimentos corroem o poder de compra diário, anulando a sensação de avanço na renda. Paralelamente, novas frentes de investigação sobre familiares do presidente e o represamento de pautas populares no Congresso limitam a capacidade de reação da comunicação oficial.

A busca por alternativas fora da polarização e tendências para o segundo turno

A pesquisa Quaest também joga luz sobre o comportamento dos eleitores chamados de "independentes" — aqueles que declaram não se alinhar nem ao lulismo nem ao bolsonarismo. A oscilação de Augusto Cury, que passou de 10% para 8%, indica a busca desse segmento por uma via alternativa, ainda que nenhuma terceira força tenha conseguido capilaridade suficiente para romper o afunilamento principal. Contudo, quando analisadas as projeções de segundo turno, a migração dos votos de candidatos minoritários como Cury, Romeu Zema, Ronaldo Caiado e Renan Santos tende a se inclinar proporcionalmente mais em favor da candidatura de oposição encabeçada por Flávio Bolsonaro.

Diante desse quadro complexo, a campanha de Lula enfrenta a escassez de novidades capazes de reacender o entusiasmo da base eleitoral e atrair o eleitor de centro. Pautas de forte apelo social, como a discussão em torno do fim da escala de trabalho 6×1, acabaram postergadas no ambiente legislativo para momento posterior ao pleito. Sem um fato novo de grande impacto ou um discurso renovado de esperança, a gestão atual entra em uma fase crítica na qual o desgaste político exige correções rápidas de rumo.

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Fonte: https://oglobo.globo.com

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