A falta de infraestrutura básica no bairro Jardim Manancial, localizado em Cuiabá, transformou o simples ato de ir ao trabalho, à escola ou a uma consulta médica em uma penosa jornada diária. Sem condições mínimas de trafegabilidade nas vias locais, os veículos do sistema de transporte coletivo não conseguem circular pela região. Como consequência, cidadãos precisam percorrer até dois quilômetros a pé para alcançar o ponto de parada mais próximo, enfrentando vias de terra batida que se alternam entre poeira densa nos dias secos e lamaçal nos períodos de chuva.
A gravidade do cenário mobilizou a Defensoria Pública do Estado de Mato Grosso (DPE-MT), que notificou formalmente a Prefeitura de Cuiabá, sob a gestão do prefeito Abilio Brunini, além das secretarias municipais envolvidas. A cobrança ocorre após a eclosão de manifestações da comunidade local, articuladas por meio de um abaixo-assinado promovido pela Associação de Moradores do Jardim Manancial. O documento formaliza o pedido de socorro de centenas de famílias que vivem desassistidas de serviços essenciais, como transporte público, saneamento e pavimentação.
O impacto diário da falta de mobilidade na comunidade
A rotina nas ruas Vinte, Moisés, Timóteo e Lucas evidencia o isolamento ao qual a localidade foi submetida. A obrigatoriedade de caminhar longas distâncias afeta com ainda mais severidade os grupos mais vulneráveis da população, como idosos, crianças em idade escolar, gestantes e pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida. Para esses moradores, o trajeto não representa apenas um incômodo diário, mas uma barreira concreta de acessibilidade que limita o exercício de direitos fundamentais.
A poeira constante em períodos de estiagem amplia os riscos de complicações respiratórias, enquanto as chuvas transformam o leito das vias em buracos escorregadios e inacessíveis. Em casos de urgência médica, o deslocamento de ambulâncias ou carros de aplicativo torna-se inviável, deixando as famílias em situação de extrema vulnerabilidade e dependentes da ajuda comunitária para superar os trechos críticos.
Negativa técnica e a constatação do abandono estrutural
O impasse ganhou contornos oficiais quando a Defensoria Pública solicitou à Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana (Semob) a extensão do itinerário das linhas de ônibus para atender ao interior do Jardim Manancial. Contudo, após realizar uma vistoria técnica no local, a própria Semob indeferiu o pedido sob a justificativa de que o leito viário não oferece condições de segurança para a circulação dos veículos pesados da frota.
O parecer técnico apontou que a ausência de pavimentação, aliada à presença de erosões profundas e crateras, inviabiliza a operação sem causar danos aos ônibus ou colocar em risco passageiros e motoristas. Diante da negativa, a DPE-MT realizou uma inspeção própria no bairro, onde constatou não apenas o colapso viário, mas também a inexistência de drenagem pluvial e uma rede improvisada de água e esgoto, composta por mangueiras plásticas expostas e frequentemente danificadas.
Entrave fundiário e a resposta do Poder Público
Buscando soluções paliativas de curto prazo, o órgão defensor acionou a Secretaria Municipal de Infraestrutura e Obras para exigir um cronograma de pavimentação ou, de forma imediata, a execução de serviços de cascalhamento e nivelamento do solo. A ausência de resposta inicial motivou o envio de uma nova notificação direta ao Gabinete do Prefeito.
Em resposta aos questionamentos, a Secretaria de Infraestrutura e Obras informou que o Jardim Manancial está situado em uma área pendente de regularização fundiária. Segundo a pasta, irregularidades no traçado viário dificultam a entrada e a operação de maquinário pesado no momento. O município alegou que estuda formas de viabilizar a intervenção de maneira segura, garantindo que os serviços não destruam as tubulações precárias de água já instaladas.
Por sua vez, a concessionária Águas Cuiabá esclareceu que qualquer expansão regular dos serviços de água e esgotamento sanitário na região depende das diretrizes da Prefeitura de Cuiabá e do Órgão Regulador (Cuiabá Regula). O cenário reflete como entraves burocráticos e a falta de regularização urbana terminam por adiar entregas básicas de cidadania à população.
Busca por soluções e próximos passos
O drama vivido pelos moradores do Jardim Manancial ilustra os desafios recorrentes do crescimento urbano não planejado nas capitais brasileiras, em que bairros inteiros se consolidam sem a estrutura mínima necessária. A Defensoria Pública reafirmou que continuará monitorando as ações do Poder Executivo municipal para assegurar que medidas emergenciais, como o cascalhamento, sejam adotadas para garantir o direito de mobilidade e a dignidade dos moradores.
A evolução do caso no Jardim Manancial e seus desdobramentos seguem sob o acompanhamento atento da sociedade e das autoridades locais. Para continuar informado sobre os principais fatos de infraestrutura, direitos sociais e cidadania que impactam os municípios brasileiros, acompanhe as atualizações diárias e as reportagens aprofundadas do portal <b>Capital Capixaba</b>.
Fonte: https://g1.globo.com