A busca por parentes desaparecidos é uma das dores mais profundas e silenciosas enfrentadas por milhares de famílias brasileiras. Em Mato Grosso, uma iniciativa que combina tecnologia, revisão de procedimentos e empenho científico tem transformado essa realidade e conquistado reconhecimento em todo o país. O projeto “Lembre de Mim”, desenvolvido pelo Instituto de Identificação da Perícia Oficial e Identificação Técnica de Mato Grosso (Politec-MT), foi anunciado como finalista da 23ª edição do Prêmio Innovare, uma das premiações mais prestigiadas do sistema de Justiça brasileiro, na categoria Justiça e Cidadania.
A cerimônia de premiação está marcada para o dia 3 de dezembro, mas a indicação já representa um marco importante para a Perícia Técnica nacional e para o avanço dos direitos humanos e da cidadania no país.
Tecnologia e protocolo contra o esquecimento
Em atividade desde o final de 2024, o projeto “Lembre de Mim” nasceu com o objetivo de resolver um problema histórico nas instituições de perícia: a falta de uma metodologia contínua para reanalisar casos de corpos não identificados sepultados ao longo dos anos. Antes da implementação da iniciativa, registros e laudos físicos acumulavam-se no acervo do Instituto Médico Legal (IML) de Cuiabá sem um fluxo estruturado de cruzamento sistemático com cadastros de pessoas procuradas por familiares.
Para reverter esse quadro, a equipe técnica passou a integrar métodos avançados de necropapiloscopia — o estudo e recuperação de impressões digitais de cadáveres —, sistemas biométricos automatizados e softwares de reconhecimento facial. Essas ferramentas tecnológicas permitem comparar dados antigos de acervos locais com extensas bases de dados civis e criminais.
Além do investimento em tecnologia, o projeto criou Procedimentos Operacionais Padronizados (POPs) para nortear cada etapa do processo pericial. Essa padronização minimizou falhas operacionais, evitou retrabalho e garantiu maior rapidez na solução de casos arquivados há anos.
O impacto humano traduzido em estatísticas
Os dados coletados em doze meses de atuação revelam a eficácia da nova abordagem. De um total de 130 casos antigos revisados pela Politec-MT, 60 pessoas foram formalmente identificadas — o que representa um índice de eficiência de 46,2%. Com o novo protocolo, o tempo médio para obter a identificação caiu para aproximadamente 13 dias.
Para além das estatísticas formais, o trabalho resultou no encerramento da angústia para 32 famílias localizadas diretamente pela equipe do projeto. Entre os casos solucionados estão o de um idoso desaparecido no Réveillon e identificado 15 anos após o sumiço, o de uma mulher natural de Resplendor (MG) sepultada em Cuiabá sem identificação há sete anos e o de um homem desaparecido em 2012 cujos familiares aguardavam respostas há mais de uma década. No total, mais de 40 pessoas sepultadas como indigentes ao longo dos últimos 20 anos tiveram a sua identidade restabelecida.
Modelo para a segurança pública e direitos cidadãos
A indicação do “Lembre de Mim” ao Prêmio Innovare projeta a metodologia mato-grossense como uma referência a ser adotada por órgãos de perícia em outros estados. O Prêmio Innovare busca identificar e divulgar práticas eficientes que tornem a Justiça mais rápida e acessível, sem a necessidade de reformas legislativas, destacando soluções administrativas e tecnológicas de grande impacto social.
De acordo com a coordenação do projeto, composta por papiloscopistas e técnicos em necrópsia do estado, o principal mérito do trabalho é devolver o nome e a dignidade a pessoas falecidas, garantindo às famílias o direito fundamental ao luto e à memória. A visibilidade obtida na premiação fortalece a relevância de investimentos em bancos de dados integrados e perícia papiloscópica no Brasil.
Outras iniciativas de cidadania em destaque
O estado de Mato Grosso também teve outra iniciativa reconhecida nesta edição do prêmio. Na categoria Tribunal, a "Expedição Justiça Sem Fronteiras", promovida pelo Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT), conquistou uma vaga entre as finalistas.
Coordenado pela Justiça Comunitária, o projeto leva atendimentos itinerantes de cidadania, assistência jurídica, saúde e documentação a populações vulneráveis e comunidades indígenas em regiões isoladas, combatendo barreiras geográficas no acesso aos direitos básicos.
O avanço de projetos como estes reforça o papel transformador da gestão pública e da inovação científica no fortalecimento da cidadania em todo o país. Para acompanhar mais notícias sobre direitos humanos, avanços tecnológicos, perícia e ações de cidadania que impactam a sociedade brasileira, continue acompanhando a cobertura completa do Capital Capixaba.
Fonte: https://g1.globo.com