A investigação sobre a morte do jovem entregador <strong>Paulo Messias Simão Costa</strong>, de 23 anos, ganhou novos capítulos marcados pela indignação familiar e por um complexo impasse jurídico. O motorista <strong>Hercílio Junio Freitas Cordeiro</strong>, de 22 anos, suspeito de provocar o atropelamento fatal enquanto conduzia um veículo de luxo, voltou a se apresentar à Delegacia Especializada de Delitos de Trânsito (Deletran), em Cuiabá, nesta sexta-feira (4). Acompanhado por seus advogados, o jovem optou pelo direito constitucional de permanecer em silêncio durante o interrogatório e acabou liberado pela segunda vez consecutivo.
O caso reacendeu o debate sobre o sentimento de impunidade e o funcionamento do sistema de Justiça criminal em acidentes graves de trânsito. Como Hercílio não foi preso em flagrante e não havia um mandado de prisão preventiva expedido pelo Poder Judiciário, a Polícia Civil não possui amparo legal para mantê-lo detido. A chegada do investigado ao distrito policial foi marcada por forte tensão, com aglomeração de populares, protestos por justiça e a necessidade de escolta de seguranças e policiais para conter os ânimos.
Sequência de imprudências e rastro de destruição na capital
A reconstituição dos fatos realizada pelas autoridades aponta uma sucessão de atos irresponsáveis ao longo da madrugada do último domingo (30). De acordo com depoimentos prestados à Polícia Militar, inclusive pela própria esposa de Hercílio, o motorista teria sido expulso de uma famosa casa noturna da capital mato-grossense pouco antes da tragédia. Relatos indicam que ele ingeriu bebida alcoólica, ficou alterado e quebrou um copo no estabelecimento, sendo retirado pelos seguranças.
Mesmo sem possuir a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) e sob efeito de álcool, o jovem assumiu a direção do automóvel de luxo. A partir desse momento, o trajeto pela Avenida Isaac Póvoas transformou-se em um rastro de perigo. A primeira colisão ocorreu no cruzamento com a Avenida Presidente Marques, onde o carro atingiu violentamente a traseira de uma motocicleta parada no semáforo. O condutor foi arremessado e sofreu ferimentos nos braços e pernas, enquanto o motorista do automóvel fugiu sem prestar socorro.
Poucos metros adiante, no cruzamento com a Rua Joaquim Murtinho, aconteceu o segundo choque. O veículo atingiu em cheio a motocicleta pilotada por Paulo Messias. A violência do impacto provocou lesões gravíssimas no entregador, que morreu no local antes mesmo que a equipe do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) pudesse realizar o socorro. Após o segundo acidente, o suspeito abandonou o carro próximo a um pronto-socorro e fugiu a pé.
O contraste social e o sonho interrompido de um trabalhador
A tragédia expõe a dura realidade enfrentada por milhares de trabalhadores informais e motociclistas de aplicativo no Brasil. Aos 23 anos, Paulo Messias mantinha uma jornada exaustiva, dividindo-se entre dois empregos para conseguir quitar o financiamento de sua motocicleta. O veículo, segundo familiares, representava a realização de um grande sonho pessoal e a garantia de sua autonomia financeira.
O contraste entre a rotina de sacrifícios do jovem trabalhador e a atitude irresponsável de um condutor não habilitado ao volante de um carro de alto valor gerou forte comoção popular. A morte precoce do entregador causou revolta na comunidade local e mobilizou colegas de profissão, que cobram rigor na apuração e punição exemplar para o responsável.
Andamento do inquérito e próximos passos na Justiça
A Deletran segue com as investigações para concluir o inquérito policial. Os investigadores trabalham na análise de imagens captadas por câmeras de segurança ao longo do trajeto percorrido pelo veículo, além de aguardarem os resultados dos exames periciais e das filmagens da boate. A intenção é comprovar tecnicamente o estado de embriaguez e a conduta de omissão de socorro por parte do motorista.
A defesa de Hercílio afirma, em nota oficial, que seu cliente compareceu espontaneamente à delegacia e permanece inteiramente à disposição das autoridades. Os advogados ressaltaram que não comentarão o conteúdo das investigações em respeito ao andamento do processo e à família do jovem vitimado. Assim que o inquérito for finalizado, o material será remetido ao Ministério Público, que avaliará se denunciará o investigado por homicídio com dolo eventual — quando se assume o risco de matar — ou homicídio culposo.
Casos como este demonstram a urgência da conscientização no trânsito e do rigor na aplicação das leis para evitar que mais famílias percam seus entes queridos de forma trágica. O portal <b>Capital Capixaba</b> segue acompanhando o desdobramento das investigações com o compromisso de trazer informação clara, apurada e contextualizada sobre os temas de maior relevância do país. Continue navegando em nosso site para acompanhar esta e outras notícias atualizadas sobre segurança, direitos e cidadania.
Fonte: https://g1.globo.com