A combinação crítica entre estiagem prolongada, altas temperaturas e ventos intensos voltou a acender o alerta vermelho no meio rural brasileiro. Na última semana, uma onda devastadora de incêndios atingiu propriedades agrícolas e áreas de vegetação nos estados de Mato Grosso, Tocantins e Rondônia. O cenário de emergência exigiu mobilização comunitária, combate ininterrupto por forças de resgate e gerou cenas impressionantes que refletem a gravidade da seca no campo.
Em Mato Grosso, a gravidade da situação ficou evidente no município de Jangada, onde imagens registradas por moradores mostraram dezenas de cabeças de gado correndo para escapar das chamas que cercavam o pasto. A cena reflete o desespero de produtores rurais e animais diante da rapidez com que o fogo se alastrou pela vegetação seca, alcançando áreas destinadas ao manejo pecuário e ao cultivo agrícola.
Ventos fortes e perdas na agroindústria de Mato Grosso
As avaliações do Corpo de Bombeiros apontam que o alastramento veloz do incêndio em Jangada foi impulsionado por rajadas de vento que atingiram aproximadamente 40 km/h. Aliadas à presença de pastagens com acúmulo de matéria seca e à baixa umidade do ar, as correntes aéreas transformaram pequenos focos em extensas barreiras de fogo em questão de minutos, inviabilizando a contenção inicial pelos trabalhadores locais.
Os prejuízos econômicos foram imediatos e expressivos. Uma usina da região contabilizou a destruição total de uma área de 120 hectares de lavoura de cana-de-açúcar. Elizamara de Souza, gerente da unidade industrial, descreveu o sentimento de impotência frente ao desastre: <i>"Tudo aquilo que a gente já fez, vai ter que fazer de novo. Foram duas áreas queimando ao mesmo tempo e a gente ficou sem poder fazer muita coisa"</i>, relatou, destacando os desafios operacionais e financeiros trazidos pela perda do cultivo.
Diante da escassez de recursos no primeiro momento, a solidariedade entre os produtores tornou-se a principal barreira contra a expansão dos estragos. Na propriedade do produtor rural Dogmar Rockenbach, mais de 40 vizinhos se reuniram voluntariamente, utilizando tratores, tanques de água e abafadores improvisados para criar aceiros e conter o avanço do fogo que ameaçava a estrutura da fazenda e lavouras vizinhas.
Impacto na agricultura familiar e em reservas ambientais
O problema não se restringiu ao território mato-grossense. No Tocantins, a emergência ambiental atingiu em cheio a agricultura familiar. No município de São Miguel do Tocantins, um incêndio de grandes proporções consumiu cerca de 50 hectares de vegetação em um assentamento onde residem aproximadamente 150 famílias de pequenos produtores. Foram necessárias mais de 24 horas contínuas de combate intenso, liderado por equipes da Defesa Civil e moradores, para controlar o avanço das queimadas. Apesar do impacto ambiental, não foram registrados feridos ou danos às moradias.
Em Rondônia, o fogo causou apreensão no município de Mirante da Serra. O incêndio atingiu proporções preocupantes ao avançar não apenas sobre propriedades privadas, mas também ao adentrar uma Área de Preservação Ambiental (APA) estratégica para a biodiversidade regional. Órgãos ambientais e autoridades locais instauraram apurações para identificar o ponto de origem das chamas e verificar se a queimada teve causa humana deliberada ou acidental.
O cenário climático e os riscos para o setor produtivo
Os episódios registrados no Centro-Oeste e no Norte do país expõem a vulnerabilidade do setor produtivo diante dos eventos climáticos severos. Períodos de estiagem rigorosa associados ao calor extremo tornam o solo e a vegetação propícios para a propagação rápida do fogo. Além de comprometer o bem-estar animal e a oferta de pastagem, os incêndios destroem nutrientes vitais do solo, exigindo altos investimentos para a recuperação da terra.
A recorrência desses eventos acende o alerta para a necessidade de medidas preventivas permanentes, como a manutenção rigorosa de aceiros, a limpeza de pastagens e o fortalecimento de brigadas rurais de emergência, mitigando perdas econômicas e preservando os ecossistemas locais.
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Fonte: https://g1.globo.com