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Fibrose cística e fertilidade: o que casais precisam saber antes de engravidar

Dra. Layza Merizio Borges

O planejamento familiar é um momento repleto de expectativas e cuidados, mas, para muitos casais, ele também exige a investigação de fatores genéticos silenciosos. Entre as condições que demandam atenção especial está a fibrose cística, uma doença rara e hereditária conhecida principalmente por causar severos impactos nos sistemas respiratório e digestivo. No entanto, o que muitos futuros pais desconhecem é a relação direta que a condição possui com a fertilidade humana e as chances de transmissão para as próximas gerações.

A conscientização sobre a doença ganha força anualmente durante o Setembro Roxo, período dedicado a dar visibilidade à fibrose cística. Trata-se de uma patologia crônica caracterizada pela produção de secreções espessas e viscosas que afetam órgãos como pulmões e pâncreas. Embora seja uma condição grave, os avanços na medicina reprodutiva e no diagnóstico genético abrem novos horizontes para que casais portadores do gene possam realizar o sonho de ter filhos com segurança.

Uma herança silenciosa: como a mutação afeta o corpo e a fertilidade

A fibrose cística é provocada por mutações no gene CFTR e possui um padrão de herança autossômica recessiva. Na prática, isso significa que para desenvolver a forma manifesta da doença, o indivíduo precisa herdar duas cópias alteradas do gene — uma vinda do pai e outra da mãe. Aqueles que possuem apenas uma cópia modificada são chamados de portadores assintomáticos: não desenvolvem os sintomas da enfermidade, desconhecem sua condição genética e só descobrem que carregam a mutação ao realizarem exames específicos no planejamento reprodutivo.

No organismo masculino, a presença do gene alterado provoca repercussões anatômicas diretas. A imensa maioria dos homens diagnosticados com fibrose cística nasce com a ausência congênita dos ductos deferentes, que são os canais responsáveis por transportar os espermatozoides. Essa alteração gera a chamada azoospermia obstrutiva, condição na qual a produção de espermatozoides continua ocorrendo nos testículos, mas as células reprodutivas não são liberadas no ejaculado. Já entre as mulheres, a fertilidade costuma ser preservada, embora o espessamento do muco cervical possa dificultar mecanicamente a passagem dos espermatozoides.

Estatísticas no Brasil e a matemática do risco genético

No cenário epidemiológico brasileiro, estima-se que a doença afete aproximadamente um a cada 2.500 nascidos vivos, com cerca de 6 mil pacientes devidamente cadastrados no Registro Brasileiro de Fibrose Cística. Em âmbito global, a frequência de portadores assintomáticos é expressiva: cerca de uma a cada 25 pessoas de ascendência europeia carrega uma mutação no gene CFTR. No Brasil, em razão do perfil de miscigenação e da forte imigração europeia em certas regiões, a prevalência do gene é mais elevada nos estados do Sul e do Sudeste.

Quando dois portadores assintomáticos se unem e decidem ter filhos, o cálculo probabilístico genético indica que há 25% de chance de o bebê nascer com a forma grave da fibrose cística em cada gestação. Além disso, existe 50% de probabilidade de a criança ser apenas portadora assintomática (como os pais) e 25% de chance de ela herdar duas cópias sem mutações. Por essa razão, a identificação precoce do status genético dos pais torna-se vital antes da concepção.

O papel do PGT-M e da fertilização in vitro no planejamento seguro

Diante desse cenário, a medicina reprodutiva evoluiu para oferecer alternativas seguras que evitam a transmissão de doenças monogênicas. A principal ferramenta para casais que identificam o risco genético é o teste PGT-M (Diagnóstico Genético Pré-Implantacional para Doenças Monogênicas), realizado em conjunto com a Fertilização in Vitro (FIV).

O procedimento começa com a coleta dos gametas. No caso do homem com azoospermia obstrutiva, os espermatozoides podem ser retirados diretamente dos testículos por meio de técnicas de aspiração ou biópsia. Após a fecundação em laboratório, os embriões desenvolvem-se até atingirem o estágio de blastocisto, quando uma pequena amostra de células é retirada para análise do DNA. O exame identifica com precisão quais embriões herdaram as mutações e quais estão livres da patologia. Apenas os embriões saudáveis ou portadores assintomáticos são selecionados para a transferência ao útero.

Quando investigar e buscar orientação médica

A triagem de portadores é recomendada prioritariamente para indivíduos que possuem histórico familiar de fibrose cística ou de outras doenças genéticas hereditárias. O rastreio também é fundamental para homens diagnosticados com azoospermia sem causa aparente, visto que a ausência dos ductos deferentes pode ser o único indício clínico de que o paciente é portador do gene CFTR. Além disso, casais com ascendência europeia que estejam planejando a maternidade podem se beneficiar do painel genético pré-concepcional.

O diagnóstico preventivo traz previsibilidade, reduz a ansiedade e elimina a necessidade de exames invasivos no decorrer da gravidez. Um simples teste genético de sangue ou saliva é suficiente para mapear as mutações e nortear os passos da família com segurança científica e acompanhamento especializado.

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Fonte: https://www.folhavitoria.com.br

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