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Criança pode fazer skincare? Entenda os riscos do uso de cosméticos na infância

Thalis Manhães

O hábito de gravar rotinas diárias de cuidados com a pele, conhecido popularmente pelo termo em inglês <i>skincare</i>, ultrapassou o público adulto e conquistou uma fatia cada vez mais jovem da população. Em plataformas digitais como TikTok e Instagram, vídeos de crianças e pré-adolescentes testando séruns, tônicos, ácidos e máscaras faciais acumulam milhões de visualizações. No entanto, o que nas redes sociais é apresentado como uma tendência inofensiva e divertida acendeu um alerta vermelho entre pediatras e dermatologistas. O uso de produtos formulados para peles maduras por pessoas em fase de desenvolvimento pode acarretar sérios danos à saúde física e emocional.

O interesse precoce desse público por itens de higiene e beleza já é mensurado por pesquisas do setor. Dados divulgados pela consultoria internacional The Benchmarking Company revelam que 69% das meninas e 50% dos meninos com menos de 10 anos já demonstram interesse direto por produtos de beleza. O grande entrave identificado por especialistas reside no fato de que a maioria dessas crianças consome dermocosméticos inadequados para a sua idade, impulsionada por conteúdos de influenciadores virtuais e por estratégias mercadológicas direcionadas.

A fisiologia da pele infantil e o perigo dos ativos adultos

Diferentemente da pele de um adulto, a estrutura cutânea da criança encontra-se em pleno processo de maturação. Ela é significativamente mais fina, sensível e permeável, além de produzir uma quantidade consideravelmente menor de sebo natural. Devido a essa fragilidade da barreira epidérmica, a absorção de substâncias químicas ocorre de forma mais rápida e profunda, o que eleva drasticamente a probabilidade de reações adversas e intoxicações.

Em entrevista ao portal R7, a especialista Andressa Vitória Tonete, coordenadora do curso de Estética e Cosmética do Centro Universitário Integrado de Campo Mourão (PR), ressalta que a prioridade na infância deve ser a proteção, e nunca a intervenção estética. Segundo a profissional, a pele infantil possui características fisiológicas específicas que dispensam fórmulas agressivas, as quais podem comprometer o equilíbrio microbiológico e desorganizar a camada lipídica natural do tecido.

Principais riscos físicos e o impacto na saúde mental

A aplicação de cosméticos que contêm ativos potentes — como retinol, ácido salicílico, ácido glicólico e agentes clareadores ou esfoliantes — gera consequências diretas para a saúde dos pequenos. Entre as complicações dermatológicas mais frequentes decorrentes do uso inadequado estão o surgimento de queimaduras químicas, quadros severos de irritação, dermatite de contato por sensibilização, infecções secundárias e até risco de intoxicação em casos de absorção sistêmica ou ingestão acidental do produto.

Além do prejuízo físico evidente, a busca por uma pele considerada "perfeita" ainda nos primeiros anos de vida traz reflexos negativos para a saúde mental. A exposição precoce aos padrões de beleza irreais propagados na internet pode funcionar como gatilho para o desenvolvimento de ansiedade, insatisfação com a imagem corporal, baixa autoestima e uma maior predisposição a transtornos alimentares durante a adolescência.

A pressão das redes sociais e a publicidade velada

A tendência de imitar o comportamento dos adultos faz parte do desenvolvimento infantil. Contudo, esse processo de aprendizagem ganhou contornos preocupantes com a ampliação da presença digital. A febre da estética coreana (<i>K-beauty</i>), por exemplo, acelerou a busca por produtos de alta performance sem qualquer tipo de diagnóstico ou prescrição médica.

Outro fator de preocupação é a monetização desses conteúdos. Crianças e pré-adolescentes passam a criar vídeos na expectativa de obter engajamento e renda, incentivando a prática entre seus pares. No Brasil, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), o Código de Defesa do Consumidor e as resoluções do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda) determinam que a publicidade voltada a menores de 12 anos é abusiva. Apesar das restrições legais, diversas marcas conseguem burlar as normas utilizando influenciadores mirins para promover maquiagens, perfumes e sabonetes, expondo o público infantil ao consumo precoce.

Cuidados recomendados para cada faixa etária

Para afastar os riscos e manter a saúde da pele em dia, a orientação médica é optar pela simplicidade, mantendo uma rotina minimalista e adequada ao crescimento:

<b>Até os 6 anos:</b> A higiene deve ser restrita ao uso de sabonetes suaves ou hipoalergênicos e à aplicação diária de protetor solar infantil. Devem ser totalmente evitados produtos que contenham ácidos, esfoliantes, corantes ou fragrâncias sintéticas.

<b>Dos 6 aos 12 anos:</b> A rotina pode incluir a limpeza suave com produtos específicos para a infância, hidratação neutra e uso contínuo do protetor solar. Qualquer acréscimo de novos itens precisa de avaliação prévia de um profissional de saúde.

<b>A partir dos 12 anos:</b> Com as transformações hormonais típicas da puberdade, é comum o surgimento de oleosidade e acne. Nessa fase, cosméticos para controle de brilho ou tratamento de imperfeições devem ser indicados por um pediatra ou dermatologista, sempre com a supervisão dos responsáveis.

Garantir um crescimento saudável envolve proteger as crianças de modismos que possam comprometer seu bem-estar físico e psicológico. Para continuar acompanhando análises aprofundadas, orientações de especialistas e reportagens relevantes para o seu dia a dia, continue acessando os conteúdos do <b>Capital Capixaba</b>, seu portal de referência em informação com credibilidade e compromisso com o leitor.

Fonte: https://www.folhavitoria.com.br

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