A recente transferência do elefante Sandro, de 54 anos, para o Santuário de Elefantes Brasil (SEB), situado em Chapada dos Guimarães (MT), marcou o encerramento de um extenso capítulo judicial e reacendeu a atenção pública sobre as condições operacionais da instituição. O animal, que viveu durante décadas no Zoológico Municipal Quinzinho de Barros, em Sorocaba (SP), desembarcou em solo mato-grossense após uma viagem de três dias, trazendo em seu rastro a promessa de uma aposentadoria mais natural, mas também os holofotes sobre investigações ambientais em andamento na propriedade.
A atenção renovada sobre o local ocorre em razão das apurações conduzidas pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente de Mato Grosso (Sema-MT). O foco dos órgãos fiscalizadores está na determinação das causas das mortes das elefantas africanas Pupy e Kenya, registradas em um intervalo de poucos dias no final de 2025. O episódio gerou forte repercussão na comunidade de proteção animal e resultou em sanções administrativas temporárias contra a instituição.
Uma viagem marcada por embates judiciais e protestos
A história de Sandro reflete a crescente discussão jurídica e ético-ambiental sobre a permanência de animais de grande porte em zoológicos urbanos. A remoção do paquiderme de Sorocaba foi viabilizada após determinação do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP), que atendeu a pedidos de organizações voltadas à defesa dos direitos dos animais. Contudo, o processo de transferência esteve longe de ser pacífico.
Na quarta-feira que antecedeu a viagem, manifestantes contrários à saída do elefante organizaram um protesto na porta do zoológico paulista. A mobilização exigiu a intervenção da Polícia Militar, que precisou utilizar spray de pimenta para conter os tumultos e liberar a saída da carreta de transporte. Apesar das tensões registradas no ponto de partida, a chegada ao município mato-grossense decorreu de forma tranquila. Assim que as portas do recinto de adaptação foram abertas, Sandro deixou a caixa de transporte espontaneamente em menos de um minuto, iniciando a exploração do espaço e realizando o habitual banho de terra para regulação térmica.
Apuração das mortes e os desdobramentos operacionais
Enquanto celebra a chegada de Sandro, a gestão do santuário continua sob a fiscalização das autoridades ambientais devido às mortes de Pupy, de 35 anos, e Kenya, de 44 anos. Pupy faleceu abruptamente após um colapso, enquanto Kenya foi a óbito quatro dias depois, apresentando sintomas respiratórios graves e dores articulares. A proximidade temporal das duas perdas levou a Sema-MT a aplicar, de forma cautelar, a suspensão da autorização para o ingresso de novos animais no local no encerramento do ano passado.
Durante as fiscalizações iniciais realizadas em dezembro, técnicos do Ibama constataram que o santuário possuía infraestrutura adequada e uma equipe profissional qualificada, composta por biólogos e veterinários. O órgão ressaltou que a avaliação do caso exige cautela, haja vista que a maioria dos paquidermes acolhidos possui idade avançada e carrega sequelas físicas e psicológicas decorrentes de anos de exploração em circos ou cativeiros inadequados.
Laudos pendentes e a liberação de novos recebimentos
Em resposta às exigências dos órgãos de controle, a instituição apresentou relatórios detalhados sobre seus protocolos de manejo, medidas sanitárias e procedimentos de quarentena. Análises laboratoriais iniciais descartaram a presença de bactérias do complexo <i>Mycobacterium tuberculosis</i> nas amostras colhidas. No entanto, o Ibama informou que a investigação permanece aberta, uma vez que os laudos definitivos de necropsia de Pupy e Kenya ainda não foram concluídos, impedindo uma afirmação categórica sobre a causa exata dos óbitos.
Diante das comprovações sanitárias e da ausência de riscos imediatos reportados pelas autoridades de saúde animal, a Sema-MT revogou a medida cautelar e restabeleceu a licença do santuário em fevereiro deste ano, autorizando novamente o recebimento de espécimes. À época, a diretoria da organização repudiou o que classificou como uma campanha de descrédito motivada por pressão nas redes sociais, sustentando que suas operações cumprem rigorosamente as exigências regulatórias nacionais e internacionais.
O papel da transparência no acolhimento de animais resgatados
O caso reflete a complexidade que envolve a gestão de refúgios para a fauna exótica de grande porte no Brasil. Ao mesmo tempo em que oferecem uma alternativa de vida com maior liberdade para indivíduos privados de seu habitat natural, essas instituições operam sob vigilância contínua da sociedade civil e dos órgãos estatais. O desfecho das análises pendentes será determinante para consolidar os protocolos sanitários vigentes no país e garantir a segurança do manejo dos demais habitantes do recinto.
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Fonte: https://g1.globo.com